o vestido - FERNANDA LETURIONDO

Naquela casa de quatro moças, só um vestido era de festa. Só um vestido era bonito. O revezavam. E quando em festas o vestido chegava, o lugarejo se voltava para despi-lo. Quem o trazia no corpo, era sempre uma aposta.

Os critérios desconhecidos davam sempre uma chance em três, de acerto.

E as moças eram as mais bonitas da região. Tinham poucas por ali, é mesmo. Mas se tivessem muitas, seriam lindas, ainda, aquelas irmãs. Uma mais velha ano e meio que as outras, gêmeas.

Elas cresciam e o vestido único permanecia. Tecido para outro não tinham.

O vestido foi surrando como convém a tudo de muito uso. Mas, a graça lhe aumentava. Agora, moças mais crescidas, mostravam os joelhos e o vestido, além de mais curto, mais justo, acentuava os contornos que os corpos iam botando. Vestido velho ganhava beleza.

Um dia uma gêmea casou com alguém que de passagem a viu, no vestido. Partiu. Não voltou mais.

A mais velha também se foi, sem rumo, sem o vestido. Não voltou mais.

E o vestido ficou. Mofou. E quem ficou não cabia mais no vestido. Mas também não sabia guardá-lo, o vestido de tanto usar. Solidão de moça e vestido. Roupa surrada virou estandarte da esquecida.

Em dias de festa saíam os dois, ela sem roupa, ele sem corpo.

* Fernanda certa vez viajou pra Porto Alegre, descreveu a viagem com um entusiasmo da zorra, achei que ela gostasse de lá, ao que parece não gosta: nandalp@hotmail.com

um martelo saudoso pra barragem - ZEZÃO CASTRO

Dentre os dias que eu com prazer me lembro
Muitos deles passei em Camacã
Periquitos cantando nas manhãs
Com as chuvas de maio e de dezembro
As asinhas aqueciam seus membros
E o rio devorava suas margens
A ingazeira ofertava suas vagens
Micos fogem do tiro assassino
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

Fonte pura que escorre das montanhas
E abastece o povo desta cidade
Reduzindo a sede e a mortalidade
A água da barragem o povo apanha
A moqueca de pitu gera banha
Entupindo as nossas catrevages
Peixe bom é o que tem só cartilagem
E a araponga é o martelo ritinino
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

Era farra de cacau e cajá
De laranja, coco e biribiri
Inda hoje eu me ponho a sorrir
Quando lembro como era bom nadar
Numa tarde sem hora pra acabar
Os ponteiros dormiam na garagem
As vaquinhas ficavam na pastagem
Fosse cedo ou mesmo com o sol a pino
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

No caminho eu via o camponês
Com uma rede de junto do riacho
Quando o peixe escapava: ô que diacho!
Comentava em sofrido português
E assim sendo, o pitu era o da vez
O acari não saía da entocagem
Pedra e lodo eram a sua estalagem
Pra escapar da panela, vil destino
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

No caminho os morcegos derrubavam
Os coquinhos vindos da sapucaia
A galera ficava de tocaia
E na fruta silvestre se amarrava
Empurrando-se quase se acabavam
Pra comer, era aquela fominhagem
Quase sempre havia a molecagem
Guerra de jaca... era só desatino!
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

Água escura do velho Panelão
Que alimenta o povo em Jacareci
Se um prefeito olhasse para ti
Via esgoto correndo de montão
E se tivesse amor no coração
Tirava do seu leito esses dejetos
As ações sairiam dos projetos
E as vermes não causavam mais pepino
Foram bons os meus tempos de menino
Dando pulos nas águas da barragem

* Jornalista e cordelista, ou o contrário: zezaocastro@yahoo.com.br