A REVISTA MUFA APRESENTA
STRETTO PONTE
mufa: revista

ED. 015 - pá de cal apagada

O burro de ouro
(ou poema das cinco da manhã de um sábado)
- Para mim, para Marta, e para quando o futuro agora.

Não, eu não tenho tanta coisa
É só
pouco tudo pra te dar

- O tempo que passe atento
e amigo,
algum dia nos deixe a sós.

quero te contar por onde vivi
e fui, o quanto fui
e sempre levei

você comigo, e guardei:

você abraço agora
você tempo voou
você do quando volta
você amanhecer
em nós, manha,
mãe, e amanhã        
?
será
!
nós vou estar             

- E, tempo, agora volte,
corra vento e longe
aponte.

E isso é tão,                    amigo
guardei       Diz tudo
agora                         um dia
Pouco           guardei                     voa
volta      nós                              voa        
manhã       um dia                   voa                                           voa
e voa                 amigo                                      voa
Volta  Nós

Volta.

Salvador, 27 de Agosto de 2011.

Ed. 014 - djair

014_1

Prova: Sururu – um barraco barroco. Professor: Pe. Antônio Vieira. Turma: U de urubu. Mote: Um selvagem levanta o braço abre a mão e tira um caju.

Responda as questões atentamente. Marque com um “x”. Há apenas um maneirismo correto para cada rococó. Evite e baixaria a todo custo.

1.PORTUGUÊS. Verta, caríssimo, o texto abaixo, redigido no nheengatu de nosso tapuias, para a língua do pê de Portugal e do pêrêquêtê:

“óia, nada conseguiscrevê não... didéias tava cheiu eu. Mas disse Mélla-me assim “cum palavras poesia si faz i não comidéias”. e daí foi nessora um querubim queu vi selvagem levantá u braço, a mão no cu du capeta enfiá, abaixá, abrí a mão e tirá um cajú. Mellei-me e Mellarme-ei dinovo seu revê issaí!”

ao findar a tarefa o resultado ficará deste jeito:

a)
gozo (ex)posto
chego, topo, zôo
pós-corpo
posto o oposto
topo (topas?):
stop peste!

sexo (ex)pele
poso, posto, pouso
zigoto

ego (ex)pulso
pulo, sigo, luxo

b)
http://www.youtube.com/watch?v=PzpXtdU03yI

c)
pe-go pê-(ex) pê-pôs pê-tô, etc.

d)
n.d.a.

2. LITURGIA. A pedido do Vigário Geral da Muribeca o Capitão Paulo Vaz da Conceição compôs uma missa pro defunctis para bongô e clavicórdio.
Nos trechos abaixo identifique o que pertence ao “Kyrie”, ao “Credo” e ao “Glória” respectivamente.

trecho 1:

Solista

mas que fez ocê?
ó selvagem do cajuêro!
que fez pra sofrê
o que só ôtro ómi sofre?!
se o braço alevanta
num alcança
sábra mão
delalgo um Ca-jú tira

Côro

idolatrar o dólar
alfabetizar o falabela
musicar o casmurro
ejacular na janela

Solista

fala agora preu
cacontece quando
chega perto dagua?

Côro

domesticar os mestiços
violentar a viola
carimbar a marimba
e alcoolizar a calçola

trecho 2:

um selvagem levanta o braço, abre a mão e tira um caju .. é um selvagem, ele abre o braço, levanta o braço, tira a mão, o selvagem, o braço, o caju (se houver uma flecha clichê que se diga .. irresistível) .. um selvagem arrodeado de imensos promontórios de pedra / urbes não, rochas ígneas tampouco >>> sua expressão é lívida, talvez recordasse dos seios madurinhos de Síegdó (o caju) .. abre o caju, tira o braço, a mão, a flecha, sobe um perfume aquele inconfundível dela sua deusa, a ilha / os rêmoras se avolumam sobre tamboretes agudos na pedra, babando, enquanto os hedonistas, mais afoitos, partem pra cima do pobre discípulo ilhéu de Síegdó (não deveria ter tanta gente assim nessa escalada). ele um selvagem .. levanta o outro braço, abre e fecha a mão repetidas vezes (o caju flutua à jusante), e maneia inteiro o dorso da alma como vindo de um torcicolo impossível, a boca, a contrafome, o caju >>> gesto ao qual os hedonistas subitamente estancam obedientes: não há mais o que conhecer desse homem .. suas feições agora se contorcem vezesmente / um turbilhão de semoventes ocupa o antro terrificando os hedonistas e suas crenças no exercício do fogo: não há mais fogo (o caju despenca no chão) .. as folhas secas voltam a exalar o aroma forte, Síegdó, Síegdó: o coro insiste .. quem sabe aqueles provedores do norte não viriam socorrer tal esquete bizarro, o coro, o corso, aqueles provedores .. tudo muda: não há mais objeto a ser sustentado aqui, por isso os hedonistas se satisfazem de repente com os membros arrancados do selvagem rapaz / uma ilha, uma fruta, muitos braços.

 trecho 3:

resto de sorte

3. DIREITO CANÔNICO. Num dos muros da Sé de taipa de Nossa Senhora das Campinas do Mato Grosso, um selvagem que cobardemente assinara “XTO1” escreveu esta blasfêmia:

“...
ok
porisso que só bebe cachaça...”

o réu, após a detenção, deverá ser castigado:

a) Na tradução simultânea da seguinte palestra neo-concreta do Doutor Póstudo:

não é crônica é poema concreto paulista fake? em 2011? até tu Brutus? não é poesia, é música: todos os sons vêm do primeiro verso imagine aí uma percussão aleatória de base e tá pronto tiqxiqtiqxiqtiqxiqtucxiqtic tuc tic ticxiqtictic ticxiq tictictictic... e a voz? acho que deve ser feminina e meio gutural como aquela moça que canta Black Bird no disco ‘I am Sam’ explicação: chego = (ex) invertido (xe) + go (de gozo) = xego / zôo = gozo – (g) = ozo + rotação inversa = zoo, donde zôo do verbo zoar observe a sequência:  ‘posto o oposto’...  rotação pura: (você pega 6 notas, por exemplo, sol-dó-si-mi-ré-lá e vai rodando elas:lá-sol-dó-si-mi-ré  ré-lá-sol-dó-si-mi mi-ré-lá-sol-dó-si etc...) da mesma forma:  posto – opost – topos – stops – pst observação oportunista: de pst dá pra gerar uma série de ruídos sonoros do tipo  pskt, psktz, psktziiu, psktziiiu... e salpicar na percussão (já fiz uma música assim), etc.

b) Na fúria da mão que pega o caju:

http://www.youtube.com/watch?v=XEt_UVunxxo

c) No degredo para Angola, tocando viola nesta toada:

“cê, a cá, jê, u jú! tatu mandacaru pitu abaporu sururu tohu ve bohu, caju. Araribóia, Cabôca Jurema caju, canguçu peru baiacu anu urutu canguru pacu jaburu! ca-ju. Nhóra vamo sarava! cajú? beijú lundu maracatu cru nambu caruru paracatu menu bijoux, caju-ú. caju, cambucu sagu mundurucu mulungu jururu chuchu gabiru Nanã Burucu teiú andu, caju! ca-ju, cu belzebu paiaçu tabu cabuçu, etcétera e tal...”

d) Numa cadeira, fortemente amarrado e amordaçado, a ouvir o “Sapo Cururu” dos Raimundos no repeat:

http://www.youtube.com/watch?v=K5ksQXbhcds

4. ORQUESTRAÇÃO. A batida do bongô deverá ser vocalizada da seguinte forma nas aulas de solfejo duma aldeia de bárbaros tapuias:

a) pêrêquêtê têpêquêrê rêtêpêquê         Bum!quêrêtêpê pêquêrêtê têpêquêrê          Bum! tiqxiqtiqxiqtiqxiqtucxiqtic tuc tic ticxiqtictic ticxiq tictictictic... (ad infinitum)

b) baú uruçu acaju zulu vodu, caju. caju, angu zebu babaçu xampu calundu urutu, caju. Onça pintada num toco o miado terrível da jaguatirica suçuarana em riba dum pé de pau

c) Estados Unidos da América .. dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três

d) n.d.a.

5. RESSUREIÇÃO. Por que Nanda Leturiondo, Gustavo Arruda e Fernando de Lucena não abriram a boca nesta edição?:

a) charminho

b) enfado

c) crise literária

d) técnica revolucionária do silêncio a 4 vozes

e) coisa séria

que é que houve?

6. FISIONOMIA. Vosmecê sabe quem é Codetta Safadinha?

a) XTO2.

b) Fafá de Belém.

c) Mamãe.

d) Jurema, ô juremê juremá! é uma cabôca de pena filha de tupinambá, rainha das águareia nunca atirou pra errar.

e) Siégdó.

Boa sorte, caríssimo, e que Nosso Senhor Jesus XPTO esteja convosco. O barraco já não existe mais, o barroco está fora de questão: vendido para aquele senhor de botas escuras, urucum na testa e um caju sem castanha na mão.

***

As FÓRMULAS seguintes pode ajudá-lo a responder as questões anteriores. Ou não. Vale!:

FORMULA DO CAJU:

... etcétera e tal, rococó jacu Península de Itapagipe Praia de Cananéia Promontório de Passé um céu de talha dourada. ca-jú? caju! caju. Oh! se a gente preta, tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera bem quanto deve a Deus e a sua Santíssima Mãe por este que pode parecer desterro, cativeiro e desgraça, e não é senão milagre, e grande milagre? Dizei-me: vossos pais, que nasceram nas trevas da gentilidade, e nela vivem e acabam a vida sem lume da fé nem conhecimento de Deus, aonde vão depois da morte? todos, como credes e confessais, vão ao inferno, e lá estão ardendo e arderão por toda a eternidade. caju, jararacuçu, cajú. Pirão de tracajá, uma pititinga  bem fritinha batida feito paçoca num pilão de monguagá, amendoim, refresco de cajá, jaca mole e moela de jacutinga cajú, pirarucu taperuçu, ca-ju. caju! tambu cajuru embiruçu, caju. Já vistes, ó Vigário Geral da Muribeca, os teus cento e trinta mil-réis trocarem-se por oitenta quilos de farinha? Vosmecê está enganado, cento e trinta mil-réis e nem uma castanha a mais valerão os teus alqueires de charque verde. Marinícolas jiboia-açu. A triaga da virtude é o veneno da maldade, pela orelha esquerda de Nossa Senhora Sant´anna, juro a vosmecê, caju, Bangu Exu Jaú Aracaju? caju. Jesusmariajosé tacape Padre Vieira nu e cruel borduna. ca-jú?

FORMULA DO ABACAXI:

você sabe que explicar é sempre pior, né?
vamos mudar de assunto: e o ambiente semântico?
a dessacralização do mundo na época do gozo escancarado
mostrar o gozo é mais importante que gozar mesmo
as celebridades são sempre vistas em posição de gozo escancarado
a dessacralização da morte – a exposição dos cadáveres plastificados, já escrevi uma crônica sobre isso (Cf....)
pós-corpo...
 mas justamente, ‘corpo’ não pode ser deduzido do primeiro verso
ah, isso aí tem nome, chama-se de ‘inspired inflection’
é quando um limite é flexibilizado em nome de outro alguém...
tá parecendo bolero... (outro alguém...?)
é, outra intenção, outro amor, dá no mesmo
o amor da forma cedendo ao romã dos significados
desculpe, romã foi também ‘inspired inflection’ só que              ao contrário – o amor da significação cedendo ao amor da forma

amor da forma
amorfa forda (ihhh, tá começando outra vez...)
  
mas o que ofende mesmo é você me chamar de concreto- paulista-fake
você quer baianidade ehhh?
quer baianidade seu pêrêquêtê??
então tome esse aí de baixo, com espelho e simetria no meio:

FÓRMULA DO ESPINHO ENCRAVADO NO DEDÃO:

http://www.youtube.com/watch?v=XEt_UVunxxo

e

http://www.youtube.com/watch?v=5BE4EJjVCTQ

FÓRMULA SAFADINHA:

* resto rearrumado vira sorte; musicar vira casmurro; ‘ejacular na’ vira janela...
** qualquer semelhança de significantes com personagens reais é mera coincidência

014_2

 

ED. 013

Marcha das Vadias
ou
Grand Guignol
ou
Elegie: der Tod und die Liebe pros sadomasôs

Weil ich ihr helles Leben für mich will!
J.W. von Goethe

agora é o tchubirabiron... vai fazer, mãe? vai fazer, mãe? vem comigo!
Léo do Parangolé

trilha sonora desta edição, bota o fone e vai ouvindo:
http://www.youtube.com/watch?v=xc8alGdtHGs&

a
anacruse

– Bem-vindo, Senhor Brutamontes, Pé de Porco, Focinho de Porco. Ora pois, Dona Arlete. Bem-chegados abanquem-se, então, à boca de cena. Vai começar.
Nas axilas e nos músculos das coxas um holofote e seu espote de alfazema profumosa e rala o pinto, esperma e algemas. Rosas cravos madressilvas flores e rala a tcheca, uma guirlanda enfeita o tablado. Carrinho de mão!

b
foda no zoológico de Berlim

... e a gatinhas sentem uma dor miserável quando um angorá qualquer, um de madame, azunha as costas das pobrezinhas, hum?
e as pernas tremiam, os olhos ejaculavam >>> agüentar o peso de um elefante não é fácil, o porquinho oinc, oinc, Izabelita se contorcia tudo todos enquanto ao redor, a cama gigante, espelho no teto, partner nu: venha que eu te como toda .. as pernoquinhas ao redor.
e toda a eletricidade das enguias carregas no 220w vai pra onde na hora agá? se não vai ver só uma coisa, e ela: ai, coitado do porquinho / não há lama, apenas uma série de fotógrafos sedentos por vê-la oinc, oinc, Izabelita todas as mulheres e fêmeas do mundo .. está gozando, decerto >>> vou botar um quadro vermelho atrás do texto, vou abrir o gogó, não, não vou fazer nada.
e a ostra se arrebenta é toda num horror de lábios bivalves, se não vou solfejar aquele lied seu dedinho fazia acrobacia no mamilo do rapaz: assim não, assim sim, assim dói ..

Oh! Sie hat himmelblaue Augen,
ihre Haare sind lang und braun.

ela o porquinho, flashes malvados, todinha molhada era cedo alvorada e persiana mas a morte veio solapando pensamento quando, oinc: Wenn sie bei mir ist, ist ihre Haut rot. chega .. oinc, oinc / pôs a echarpe no corpo ainda despido, de volta à rotina. abatida ..

Dass ich ihren Mund küssen will,
will ich meine klein Lippen in ihre Lippen mittelgroß kleben.

c
ária di bravura
( enredo dum pornozão surreal-lírico )

Saco de areia pra baixo, atenção. Vai começar. No estúrdio melodrama que a nossa trupe terá a vergonha de apresentar

hoje à noite
senhoras e senhores
ó boquiaberta
audiência
um autêntico carrossel

de terríveis escabrosos morféticos horripilantes tétricos e escalafobéticos horrores rodará as suas engrenagens enervantes e enferrujadas. Aranhas, escorpiões e lagartos.
Passará raspando, navalha na carne, no foco de suas pupilas lacrimejantes, ainda detrás da cortina, o seguinte pobrema: uma Gostosa berrava, perseguida por fantasmas até um beco escuro, fez alguns passos dum balé sensual, berrou novamente, virou a Estátua da Paciência e, apois, foi varrida para um canto do tablado.
Prontofudeu, o pano abriu acompanhado por uma máquina de escrever, um trombone, um bombardão e um revólver Smith&Wesson. O Negão Cheio de Paixão e o Super Tição, dois aborígenes australianos, estupradores, hediondos, canibais, vírgulas e mais vírgulas, solfejarão, ora, a ária di bravura:

Aber sie mag mich nicht,
aber sie hat mich nicht gerufen,

ich komme mit meinem schmalen Gesicht
und dunklen Augen.

In der Nacht werden wir treffen uns:
sie soll meinen blassen Kuss probieren.

Num rompante a Gostosa voltou a vida e revela que, na verdade, Alcione e Agnaldo Timóteo são a mesma pessoa e são heterossexuais. Pobrema! Grüßen ihren großen und dünnen Körper mit meiner jungen Zunge und alte Hand. Os aborígenes querem é jantar a Gostosa e s´apreparam-se para dar o bote.
Mama Oda, a rainha da noite, aparece, triunfal magnífica absoluta vitaminada glamourosa, num carro alegórico. Baixa o Nero na Gostosa, ex Estátua da Paciência. Pega fogo na platéia e todos queimarão até. Nas profundas do Zinferno.

d
bolerão do Agnaldo Timóteo
( trilha sonora para a cena do Zoológico de Berlim )

oh! ela tem escuriolhos de se perder e tanto tempo nós ficamos separados. mas hoje eu vim dar à ela meu coração. seus cabelos são longescuros e eu só quero lhe pedir perdão. deixe-me outro dia, sim? porém hoje não.
quando ela perto de mim está, já caladas nossas bocas, e tem aquela bruta, infame, louca vontade de me ceifar. já cansado de ter orgulho, choro e cedo: ela só quer me abocanhar.
e minhas lágrimas reclamam, elas dizem no meu pranto que as brutas também amam. vem! cumprimenta-me o grandesguio corpo com sualíngua jovem e velhamão porque a minha brancalma ela quermesmo oh! vem! só eu sei o quanto eu a amo e hoje eu vim dar à ela meu coração.
dela eu não gostandomesmo eu não a chamandoela vem com sua fina face e negrolhos. vem! na noite vamos nos encontrar: oh! meu destino cruel, me expõe ao ao ridículo do inferno, com seu beijo forçado me sacrificará a alma, porém minhas lágrimas baixinho reclamam, elas dizem no meu pranto que as brutas também amam
sinto a cruz que carrego bastante pesada em nada mais posso crer, para mim nada existe, somente eu sei dizer por que vivo tão triste.
hoje eu vim dar à ela meu coração e me reacenderá brilhante como a brasa tudo aquilo a que eu de carne chamo, mas já não existe esperança num amor que morreu. desilusão falsidade amargura desejo lembrança e mais nada.
oh! ela tem escuriolhos e eu só quero lhe pedir perdão deixe-me outro dia, sim? porém hoje não.

finais possíveis

1.
e
marcha das vadias, um entremez non-sense

img_ed13_01

quer encostar seus finilábios em meus medilábios?

2.
f de foda
coda
( a última cena do pornozão surreal-lírico, não não vou botar “moda” ou “soda” pra rimar, relaxe...  )

Prestenção, netinhos: o abate vai começar [ ............ 12pt. ]

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elegia: o amor e a morte. e rala o pinto e rala o pinto e rala o pinto e rala o pinto e rala a tcheca e rala a tcheca...

3.
g
a pergunta que não quer calar

e toda a eletricidade das enguias carregadinhas no 220w vai pra onde na hora agá?

4.
h
a hora agá ou a gostosa vingança pornô-gay do porquinho oinc oinc da letra b
( espaços em branco = suspiros )

O homem detrás                    não sente a dor após,                     desfaz,              pois do seu anus lilás, esquenta a flor          e jazz, corpor, em puro           torpor, homor. 

 

desta edición brega-surreal participaron los muchachos seguientes
Agnaldo Timotéo, Evaldo Brega, Lehrer Garbers, Paulo Rocha,  Suetônio Barbosa, Thiago Leonello Andreuzzi
Vítor Queiroz ( ed. )


ED.012

Pedra – a pedra sabendo a forma que lhe dá o entalhador
A pedra sabe da forma... as the sculptor sees the form in the air before he sets hand to mallet and as he sees the in, and the through, the four sides...

CAPÍTULO I

... a pedra – o braço do Davi já estava prontinho nas pirações, nas cavidades cavilosas da razão de Michelangelo, não? O Papa Gustavo Arruda XII mandava o bruto se estafar, “cumpra o prazo, féladaputa!” e o escultor bufava.
O braço do Davi já estava pronto, ok? naquela monte de pedra bruta e o martelo tum tum tum, se já houvesse a Bahia e se o baianês já segurasse o tchan e os barracos nas encostas falaria assim: “Oxê, que diabo de prazo é esse, negão?”

E a pedra, a marmórea pedra, alheia à martelada, à Michelangelo, ao Papa Gustavo Arruda XII reclamaria também:
“sendo pros senhores, há alguma regalia concedida à senhora aqui?”

CAPITULO II

Rolam os pedregulhos, apois, já estamos no capítulo dois. A nêga Lia tem uma buzanfa da zorra!! Disse que vai aparecer na edição n12! Já estamos no capítulo dois e a edição 12 já começou.
O braço do Davi tá ficando pronto. O Papa Gustavo está mais tranquilo. Abro a caixa de e-mails. Neste finalzinho de tarde TUDO jogado, embaralhado, tudo frouxo, tudo ni promoção. Na boca do balaio.

CAPÍTULO III

... e o tempo não tô nem vendo onde anda passando, esbarra, a barra do meu vestido voa um tantinho pra que eu saiba passou um vento, um segundo, uma hora, o dia. e eu tenho que dormir.

Pedra – tô cansada, e o tempo? Wellington de Oliveira, o meu chefe, mandou outra mensagem pelo celular:

Ontem e noit 
num tvd acesso...vai 
ai o q fiz pra ese 
formato

Poema-
Mensagem?...abs? nada, não tenho regalia. A pedra, a marmórea pedra do Davi de Michelangelo antes de virar estátua e botar fama não tinha regalia, a nêga Lia não tem regalia. Acorda cedo, limpa a cisterna, dá a bunda a noite toda e vai dormir de dia.
... e, depois da promoção, da queima de estoque o que é ficou no fundo do balaio? os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério ? zautor? zotoridade málssima? toda poesia?

CAPÍTULO IV

No balaio grande da nêga. Num balaio da Avenida Sete, da Santa Ifigênia, da pracinha dos camelôs, embaralhei tudo [ 2 segundos ] e agora? Meioatropeladameioatropelando uma pergunta não quer calar.
Que é que tem a ver:

a buzanda fa nêga Lia com as calcinhas do balaio?; o tempo e o vento?; a zotoridade e toda poesia?

CAPÍTULO V

Pedra na vidraça. Meia-noite no meu quarto, a bela Silabinha vai subir.Ouço passos na escada, vejo a porta abrir. Um abajur cor de carne, um lençol azul. Cortinas de seda, o seu corpo nu.
Aí a Bela Silabinha se revoltou, CHUTOU o balde,  porra de canção machista! e berrou:

“se aqui to deitada
nesse sofá macio
atropeladavarridacansada. [ 10 minutos ] a escrita de agora é só minha!“

Ritchie, Michelangelo e outros calhordas, pasmem. [ ......................................... não sei quantos pontos marcam esta pause de puro estupor e orgulho ferido ] A fêmea fala! Escute, sacana, a voz da pedra bruta. a voz de eva. a voz da talha opulentíssima. a voz da gata. a voz da rata. a voz da nêga lia. a voz da presidenta Dilma Rousseff. de noite e de dia.

CAPÍTULO VI

Falaria a pedra para o martelo de Michelangelo:

“vem cá meu escritô
vem cá meu nego”

se as pedras falassem. Bem no meio do pires afogava-se uma mosca zombeteira. “Não tenho voz, não tenho, sou uma fêmea, um bibelô de porcelana.” A Silabinha não parava de berrar

“e quando por cima fico
logo penso
claro e por quê não
o zautor é ou num é

aquele que deveria
ao menos ou
pelo menos um pouco ter
zotoridade málssima?”

CAPÍTULOS VII e VIII

mufa_012_1


mufa_012_2

... e assim, apois, a bela Silabinha disse pro Big Book antes de morrerem com a bala na cabeça:

Zötoridade do 
que? da leitura? da 
ediÇäo? da critica?

Pedra – pedaço engasgado de maça [ 45 min ] e o martelo para na talha, no fundo do balaio resta só o burburinho. Já estamos no capítulo nove, mainha, e temos uma nova autoridade na parada. O Big Book. Zötoridado do que mesmo?

da fala? do 
pensar? Autoridade 
de merda!

Podes crer, Silabinha. Os ratos passam de lá para cá, mas o esgoto é um só. O bacharel, o Abravanel da Santa Ifigênia, a dona de casa racista, o careca do ABC, O Big Book da Avenida Sete e o alvanel: é tudo uns féladaputa.

CAPÍTULO X

Pronto, acabou-se. O braço do Davi de Michelangelo esconde a pedra e a funda. Golias cairá no chão

eu ia escrever, faltou tinta
eu ia procurar tinta na esquina, faltou gasolina
eu ia perguntar ao autor se gasolina se escreve com s mesmo, faltou tino
Tino mandou lembrança!

Pedra – acabou-se... “sigura essa viagem aee!” Wellington de Oliveira, Tino, o patrão cheira uma carreira e bate palma... “sigura essa viagem aee!” As the sculptor sees the form in the air before he sets hand to mallet and as he sees the in, and the through, the four sides...
O Papa Gustavo Arruda XII repete uma frase esdrúxula: “Primeiramente, deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente” e a pedra sabe da forma.
“Mas é pela primeira regra descrita que eu critico o poema acima.” Veja bem, um bando de frase soltas. O Papa ficou maluco? É o que ficou no fundo do balaio malaio: um bando de frases soltas, o trocadilho infame e do ôco barroco. A pedra sabendo a forma que lhe dá o entalhador fecha as cortinas, paga as luzes da ribalta, propõe um brinde:

“Cá entre nós  [ 2 segundos ] tudo é uma questão de cascas e frascos, de samambaias e babados. [ 2 minutos ] Pô, mas cadê a Nêga Lia?“

Pedra – e na frente da ôtoridade málssima, da novela, do sensacionalismo, do cronicar, do ponto de interrogação ( ? ), da nossa fome de tiros, corpos, favelados tomando no cu ou receita de bolo da Ana Maria Braga, da urina e dos turistas ...  a pedra ( a marmórea pedra do Davi de Michelangelo, etc. e tal ) faz o que, mainha?

CLARO ENIGMA

P. Advinhas tu, ó nêga Lia buzanfeira?
R. Solta um pum.

Buenas, pariciparam desta edição os seguintes bam-bam-bans:

Aline Poiesis Silva, Carlos Drummond de Andrade, Ezra Pound, Fernando Leandro de Lucena, João Frederico de Oliveira Vieira, José Lino Grünewald, Nanda, Raskolnikov Bahia,Ritchie,
Thiago Leonello Andreuzzi,Vírginia Woolf, Wellington de Oliveira, Werner

Vítor Queiroz ( ed. )

                                                              
APÊNDICES
( neles está a chave de todo o entendimento, do universo )

NOTA GRAMATICAL
por Wellington de Oliveira

Gramática: uso do z no incício da frase, como plural: se o substantivo é precedido de um artigo definido plural e inicia-se com vogal, na língua popular muitas vezes o “s” do artigo passa para o começo do substantivo e este não possui sua “declinação” de plural, por exemplo: Fromal: (O Autor/ Informal: O Autô) Os Autores/Os Autôs >>> O Zautô.
Como se pode perceber, substantivos terminados em “or” tendem a perder o “r” e acrescentar um “^” na letra “o”: senhor > sinhô, autor > autô, morador > moradô, nadador > nadadô, corredro > corredô, etc...
Assim como, em algumas palavras o “e” breve, fechado, tende a ser substituído por “i”: senhor > sinhô, e (conj.) > i, se > si, mas esse fenômeno parece não se aplicar quando tal “e” vem precedido de um “c”: cebola, celeiro, cerebelo, etc. E também não costuma se aplicar quando o “e” vem precedido de outra vogal que não seja o “s” (e mesmo dentro do “s” existem exceções como “seleção”), o que me faz pensar que a troca do “e” pelo “i” acontece apenas em palavras específicas.

CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA
Por João Frederico de Oliveira Vieira

Acabei de assistir Vertigo...................................................... [não contei os pontos] que p... Que porra foi aquela? Caralho. Desgraça. Puta merda. Já falei caralho? Já. Eu realmente não esperava estar vendo agora há pouco a melhor coisa de cinema que eu já assisti na vida (e que talvez continue sendo a melhor, porque, caralho, caralho, caralho!) Hmmmmm... Então... É... Certo. Cara... [3 minutos] Que gênio é o cara. Como é que pode um filho da puta ser tão genial quanto Hitchcock, hein?

*******************************************

um dois três...

Bota no site de busca aí, Maria Amélia, “´primeira página”. Vamo botar os fulanos de tal, uma ruma de gente famosa na epígrafe.

a primeira página ainda nem rabiscada
se preenche de sádicas palavras tortas

Liev Tolstói, Os Cossacos, 1863.

perfeito, minha nêga. Ô, a gente pode botar aquela que tá no terceiro parágrafo de Madame Bovary também, né? Acho que tem tudo a ver...

mas toda essa alegria está só
na primeira página

Gustave Flaubert, Madame Bovary, 1857. 

Ótimo, vamo botar essas no Coiso, Maria. Faz seu gargarejo aí. Que a gente se-nos-vai começar:



ED.011 a/c mamãe...

1
Foram estes
aqui, ó,
os Motes para esta décima primeira Edição:

                                                         volume: encadernação, forro de tecido, sobrecapa

img11_1primeira página: título, autor, anotações à lápis, dedicatória. Um dois três... quatro cinco seis tracinhos. Na página em branco.

2
Ques porra de tracinhos são estes aí em cima?

                                                       Que será? – hum, seis tracinhos no branco da página. Que serão?? – a. a luz difusa de um abajur lilás??? b. seis fios de cabelo???? c. as cerdas da vassoura????? d. a franja do almofadão de Madame Bovary??????

                                                        Não sei – vamos folhear o volume, apois. Que a gente ganha mais. Quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma capa nos traz?
Vamos folhear o volume, Maria Amélia. Que relógio não trasteia pra trás, obras viram ruínas ( e vice-versa ), 19 não é 20, e a Avenida Sete é... hã... enorme.

img11_2 esta é uma ilustração didática que comprova a tese de Caê
(Caetano Veloso) e dos Mamonas Assassinas nos anos de
1990 de que a diferença entre um canteiros de obras
(andaimes) e uma ruína é apenas uma questão vetorial

3
Folheando-se o volume anunciado na décima
primeira edição desta preclara revistinha e queimando-se-nos
a Mufa encontraremos:

3.1

Na pag.25 o operariado russo encontra-se, às vésperas da revolta de 1905, na taberna de Madame Bovary

uma toalha manchada de  vinho,
flores de plástico num vaso de cristal
e dois proprietários de um escrito à lápis
rascunho mínimo

de todas reivindicações proletárias.

horas no meio
papel abandonado

... mas o rascunho mínimo fica esquecido sobre a mesa. Pois um  certo POETA FELIZ toma tudo de ZÉ POVINHO no truco, modallidade “Valendo Tudo Menos o Tobas”. Rola um quebra-pau e daí, ninguém se lembra mais das reivindicações proletárias

horas no meio
papel abandonado

seria uma delicadeza deixá-lo sobre a mesa
na mancha
seria uma indelicadeza esquecê-lo sobre a mesa
na mancha

Nota de Rodapé: É importante notar que a tabaroa de Flaubert não tomou arsênico porra nenhuma.
A penúltima página do romance foi escrita, em 1857, para despistar os reacionários que queriam saber o paradeiro de Emma Bovary – a personagem controversa do realismo que largou o marido e todas as instituições burguesas. Madame foi viver, entonces, uma vida de excessos, escandalizando toda a Europa.
Emma abriu o seu boteco no final do século, numa bocada de Varsóvia, depois de haver engajado-se na luta anarquista, participado da Associação Internacional dos Trabalhadores em 1864 e barbarizado a Moral e os Bons Costumes junto com as companheiras Ana Kariênina e Luísa a partir dos anos de 1870.

3.2

Na pag.43 vemos que o POETA FELIZ também tem seus bodes e quiprocós.
Voltando ao bar de Madame Bovary

o poeta muito triste
pra ficar feliz
enche o copo de cachaça
e engole numa golada só

no vazio do bucho
a pinga pingando
deixa  a carne ardendo

Bêbado, no fim da noitada, já tendo a grana toda de ZÉ POVINHO gastado, o POETA FELIZ grita roufenho:

3 minutos de felicidade para o poeta

Emma Bovary chuta-o para fora do estabelecimento, apaga as velas e vai alimpar tamboretes, mesas e cadeiras vazias.

3.3

A partir da página 105 a narrativa é tomada por assalto pelo operariado russo.
Bombardeiam a porra toda. O “núcleo século XX” da obra está oficialmente inaugurado. Os reacionários e os anárquicos herdeiros de Madame Bovary se digladiarão até o fim do volume, entretanto.
Na página 120 o Coiso tá ruço na Polônia. O repórter Paulo Rocha e Pedregulho descreve a vertiginosa modernidade da contemporaneidade desta forma:

Varsóvia está um verdadeiro inferno. A maior onda de calor nos últimos anos. Um jornaleiro abana-se com a mão espalmada e branquela, um garotinho amarelo se diverte com seu catavento à beira do Vístula, aquele mendigo bêbado por incrível que pareça sente falta da calçada gelada. Livro para Orquestra, estampa hoje a capa de todas as revistas. A Polônia em festa. Uma ninfeta faz biquinho enquanto cruza as pernas num café incomum de esquina, uma forasteira, talvez indiana, oferece seus serviços com vinte por cento de desconto. Páginas de pornografia. O calor. Lutoslawski ganhou uma versão para cinema. Depois até uma edição especial com sobrecapa de luxo e tudo mais. Ouviu-se dizer que Penderecki fez anotações desaforadas a lápis no tal do livro, dispensou dedicatória e outros melismas, é um senhor. Compositor que se preza não vive de tapinha nas costas. Roman Polanski faltou ao lançamento. garantem que por birra de não ter sido o diretor da filmagem, mas é que em Hollywood Polanski não pisa mais. Livro para Orquestra, a notícia que circula é que gastaram mais com o volume do que com o de dentro. Witold Lutoslawski não precisava disso. A ninfeta agora se levanta sem pagar a conta, a forasteira, agradecendo ao jornaleiro por lhe emprestar a revista, insiste nas lentes de contato verdes. Penderecki morreu de ódio. Eu.

3.4

Página 104... A REVOLUÇÃO ( o show de mulatas, todavia, só ocorrerá na pag. 170 )

img11_3
Alberts Rhys Williams – assembléia na fábrica Putilov, 1917.

3.5

Na página 72, magina? o barroquismo dum Luís de Góngora, dum Fernando de Lucena, dum Garcilaso, dum Quevedo faz-nos esta vênia:

RECOLHIDO POETA FELIZ A SUA CASA
ASSASMENTE NAMORADO DO QUE HAVIA VISTO: NÃO PÓDE SOCEGAR
SEU AMANTE GENIO, QUE LHE NÃO MANDASSE
NO OUTRO DIA ESTE ENCARECIMENTO DE SEU AMOR

Rascunho de canção, ainda inacabado:

Eu não sou daqui
Vim de muito longe, sei,
mas eu canto.

E cantar é ser, pertencer,
Com sussurro ou só intenção.

Eu não sou daqui
E meu mundo é além distante
Mas Cantar é querer.
Seu corpo é mundo e multidão.

Nota de Editor: Ao invés de ser, pertencer, se colocasse serpentecer? Acho que seria mais um neologismo clichê sem significar muita coisa.

3.6

Nas páginas 129-236 há um capítulo do balacobaco o “Té se Fundirem ao Meu Ser Brasileiro”, todinho dedicado aos cambucás, à farofa, às mulatas, à Roberto Carlos e às baleias.
Vejamos, Maria Amélia, um dos barracos homéricos do trecho. Flávia Curvelo e Penderecki ( Ferdinand Joseph Johnson, cf. a Nota de Rodapé ) se-trocam-se cartas furibundas:

Se vc vai ler ou não o tanto de verdade que vc merece saber, problema seu. Mas eu tinha q me livrar de td isso de ruim que vc deixou em mim. Tentei ajudar vc, ser pelo menos uma boa amiga, e vc me sacaneando pelas costas. Não presta como homem, não serve nem pra ser grato à alguem que te estende a mão. Tenha certeza q, assim como akele diáriozinho ridículo q vc xama de livro, vc será rasgado, queimado, e esqcido. Já me livrei de qualqr coisa que pudesse me lembrar que um dia vc cruzou meu caminho. Escritorzinho de merda, continue brinkndo de telefonista em ksa e axando q vai um dia ganhar na mega sena. Cretino, falso, mentiroso, pilantra, um vagabundozinho que só fala coisa descartável. Espero que a vida te dê em dobro oq vc faz com as pessoas.



Flávia Curvelo
Fisioterapeuta
Formação em Pilates

Vira, bate, respira, volta, outra página, na 130, Ferdinand J.J. responde à altura. Flávia Curvelo nunca serviu para nada em sua vida.

Não foi uma boa amante uma boa profissional uma boa parceira no crime. Jamais poderá ser amiga de Penderecki ( Ferdinand ) que deixou, por sua vez, os seus companheiros de copo e de luta para viver com a fisioterapeuta. Este é o trecho final da cartinha:

 

 

 

A vida, ela nem se ocupa em nos dizer isso, mas está cagando para nós, e o que fazemos nela. dos amigos, como tem virado bordão meu, tenho muito orgulho dos muitos que tenho. e concluo a cada dia mais, amigos nunca se perdem. se fazem. Podem ficar distantes, sumirem um pouco, mas de algum modo estarão sempre presentes, e sempre os reconheceremos. Mato e morro por eles! Um sincero abraço!

f.

img11_4

Flávia, de sacanagem publica um florilégio poético ( págs. 131 a 164 ) que joga o nome falso de Ferdinand-Penderecki na lama. Vende que nem água.

No opúsculo Curvelo diz que, enquanto namorava Penderecki-Ferdidand, um broxa, deitou-se com pretos, brancos e vermelhos à granel.

Bom, estas são as últimas linhas do poema mais brando da série:

de toda luz que tenho
num raio rasgando o céu
me esvaziando do branco
me tinjo de preto

i quando o Sol nasce
daquela escuridão toda
ainda se filtra o vermelho

e nessa misturança
vermelho
preto
branco
jorram no encarte
minha face

Penderecki / Ferdinand encerra o barraco de maneira finíssima. Envia à Curvelo um bilhete. Nele figura-se-nos, a penas, uma cançoneta satírica de Juan Frederico de Olivéra, o grande poeta antilhano do século XVII:

No me digas todo lo que piensas
No lo digas, no
Sólo dime cuánto me deseas
si el de corazón
 

Que de amor tú no conoces nada
y ese es mi dolor
Ojalá estuviera equivocada
Pero sé que no

Nota de Rodapé: No núcleo século XX desta narrativa mucholôca há aviões, baby. Penderecki constrangerá toda a Polônia com as suas cantatas profanérrimas “Foda-se a Papa” e “Sou Feia mas to na Moda”. Será perseguido pelos bons e velhos reacionários.
Refugiar-se-á no Brasil, fingirá ser um escritor de best-sellers chamado Ferdinand Joseph Johnson por uns quatro anos e terá um caso tórrido com a fisioterapeuta sadomasô Flávia Curvelo.

3.7

Na página 302 o POETA FELIZ pega um alaúde para uns, para outros uma simples viola da cabaça, ajeita a peruca e canta as últimas árias do volume:

nos vales de suas suaves curvas
repousei
no suave volume de sua cintura
deitei
na cascata de sua saliva
deleitei
no seu corpo suado
sonhei

repousei deitei sonhei babei na primeira página

                                                          Ficamos no ar. Estará vivo o POETA FELIZ? Participa o vate do núcleo século XX da trama? ou voltamos ao século XIX? estaremos, novamente, na primeira página da obra? desta edição? mas e esta velha peruca? e esta violinha barroca?

Caímos no chão.

Aproveitando-se da balbúrdia histórico-catalográfica o POETA FELIZ canta novamente o TE DEUM ( já o havia cantado na página 75 ) e, durante a sua fala final, a que encerra o volume, emociona pedras chitas jacarés e pássaros:

Vim de um mundo bem distante. Há outra gente de mundos semelhantes ao meu, sim, e bem próximos, eu sei; e também que alguns destes povos, talvez eu jamais venha a conhecer.

Meu mundo é distante.

Não tive uma vida nem boa nem ruim; nem fácil nem difícil; nem triste nem feliz. Tive, sim, história.  E história é ser tudo isso, nas diferentes primaveras do meu mundo, enquanto ele corre no curso de sua órbita por tantos os cantos, quantos, e encantos quando.

Talvez por isso eu cante.  O canto quer ser, sempre mais do que música, ou alheia a ela, quer ser tudo, quer gritar, ainda que sussurre, ou nem saia da garganta, mas apenas, e somente, queira. Cantar é querer, e seu corpo é mundo e multidão.

Por isso eu não tenho turma. Faço tipo, faço pose, estrebucho, mas não pertenço a grupos; Tenho amigos, sim, muitos, e de muitos mundos ainda bem mais distantes.

Este é o Fim da Décima Primeira Edição da Revista Mufa
que foi feita, desta vez, por
A. R. Williams, Fernando de Lucena, Flávia Curvelo, Juan Frederico de Olivéra, Fernanda Leturiondo, Paulo Rocha e Pedregulho, Penderecki, Thiago André Uzzi
e pela dupla sertaneja Vitôncio e Wernecko.

 

 

quatro cinco seis...

Já tá bem tarde, Maria Amélia fecha o volume. Hoje não folhearemos mais nada. Vou beijar-te agora não me leve a mal hoje é carnaval.

                                             Fechou?... e agora, qué que tateiam as suas retinas cansadas? outros títulos? qué que sua língua presa poderá falar, Maria Amélia?

Quantos sacos de areia roubada serão necessários? Para se-nos-fazermos, ó Coiso?

                                             Não sei – passa, minha nega, passa as unhas nas encadernações

obras completas
3º volume
(1871-1878)
passa a página, Maria, sente cheiro de mofo, jura de pé junto, encara a  propriedade literária

editores
presente edição cotejada com os originais
pagina à página
326

volta a 1ª examina lê, Maria Amélia,lenta passa a página respira aproxima o livro do rosto

o cheiro
o corpo do livro
seus dedos
a espessura do papel
a impressão
o toque

‘A propósito... ‘ pausao lápis, uma marcaa um golpe, fechaar mofado no rostooutros ares.

 

 

sete oito nove dez... onze!!!

Veja bem, Maria Amélia esta aqui é a lombada tombada, o operariado russo se lenhando, a construção, o viés e a ruína.

img11_5

 

a tradução da tradução da tradução da obra do avesso da tradução