telesphera por mcrzel
Dentro desse pequeno armazém de palavras e sons encontram-se não só informações cotidianas, o curral da cultura e sociedade contemplado ou a língua tentando traduzir a vida. Aqui, senão subversivo, o motivo principal é buscar o jornalismo quanto mais delirante, literatura rasa. Possibilidade, porém.

Telesphera é uma publicação periódica e está dividida em 3 colunas invisíveis simultâneas: mundo distante, mundo real e mundo íntimo. Sejam bem-vindos. Tenham uma boa leitura. Cuidado ao espalharem a notícia.


as especiarias desse armazém

Tal como um roteiro detalhadamente estudado para não chegar a lugar algum, deixar-se perder em sua própria residência, por exemplo, ou descumprir cronogramas, esconder algo de si mesmo... o desenvolvimento de um jornalismo não-cumulativo assume sem medo as perdas e abre um delta infinito para as livres associações.

O teor das matérias postadas em Telesphera faz uma grande troça do tempo... dobra, rasga, amassa, cola e o reduz a pedacinhos. A pretensa memória dos narradores não está à mercê de dados planificados (logos), e sim, alucinadamente, caminha em função de tópicos. São as lacunas e etiquetas espaciais (topos) que caracterizam um certo raciocínio telesférico. Onde foi parar a chave que estava aqui?


os fregueses desse armazém

José Otávio (Zezé), um repórter português ou moçambicano, trabalha como frilancer em diversos jornais pelo Brasil e contribui com a lavra escrita nesse armazém. Ele é extremamente produtivo. Entretanto sofre com um transtorno psiquiátrico gravíssimo nunca antes identificado pela medicina. Se por um lado dificulta um bocado sua rotina profissional, torna-o único.

Maria José Contreiras (Zezé) é uma jornalista carioca, filha de espanhóis, que torce para o Botafogo. No momento não há muito mais a falar sobre ela.

Paulo Conceição Rocha sou eu, quem edita esse site. Jamais acreditem em mim... as silabinhas não estão à venda no balcão. Não tenho que oferecê-las a ninguém. Quem quiser que as pilhe, saqueie e sinta.



O subsolo, o nível médio e a crista da onda

Zezé acorrentado bebe água numa bacia azul sobre a pedra. Sim, isso é de A Pele que Habito, última obra do Almodóvar... foda-se, Zezé está morto mas os linguistas insistem em alertá-lo, não serve pra nada, desista, medíocre. Não, isso não é do filme... um avião despenca no morro da Rocinha, pegaram o Nem, pegaram o Nem. Fala alguma coisa, seu bosta. Enfim estou flertando com um lugar diferente do subsolo. Não ofereço vivas aos medíocres de sempre tampouco aos que bruxuleiam na órbita dela, ela quem? O patrocinador indaga sobre a repórter safada que lhe negara encomenda... ela, a mediocridade. Fala, Zé Otávio, fala, seu bosta, não foi você quem disse que a arte hodierna sofrível era? E que vivia se consagrando por brincar de inverter silabinha qual cata-vento sem vento? Está vendo, Nanda? Risinho sarcástico... não adianta o exercício da escrita, foi o que lhe disse antes de partirmos, e Kafka, também acorrentado, por quê? Todo mundo socado de opiniões preciosas a la quilates cem, contudo eu... destroçado avião, pegaram o Nem, pegaram o Nem, enquanto Maria José responde com aquele e-mail desaforado seu tom habitual ao patrocinador, foda-se, não vou escrever artigo vendido nenhum, pegaram o Nem, e o avião tomado pelas chamas, os barracos da Rocinha tomados pelas chamas, enquanto Maria, enquanto Zezé, mesmo morto, finalmente retruca Kafka Und Der Bau... daqui debaixo da construção é possível enxergar a quantidade de besteira que se produz pobre arte, bostas são vocês. Pois então, amigo, ser guerrilheiro dá muito trabalho atualmente. Nanda, melhor não escrever, vai por mim... a moda agora é fingir-se por cima, criticar sem veneta sequer, eu que o diga, Zé Otávio volta a bradar embora já desfalecido. E ligo o futebol para espairecer ao final do dia... argumentos não são mais necessários, energia à toa. Foi uma vez recente que vi escrito na tabuleta do comida a quilo em Porto Alegre ATENÇÃO! AS MESAS NÃO SÃO INDIVIDUAIS. AS CADEIRAS SIM. Logo depois os linguistas atearam fogo no personagem sobrevivente.

#005 | 22.10.2011

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