Messi e Iansã
Decolando. O avião saracoteia pelo tempo pesado de Salvador nessas últimas nuvens... sabe? Algo me diz que devo mesmo ficar uns meses fora. Enquanto calculo com o braço direito a fórmula do compasso para uma nova composição, a mulher ao lado se benze, cabocla, amém... amém, minha senhora. Zezé chegara cedo para entrevistar o argentino. Maria José se atrasara no seu regresso do Uruguai. Vejam bem, eu os alerto numa web-conferência em pleno voo, vocês se lembram que ficou combinado enviarem as reportagens com pelo menos uma referência literária? Mas Zezé fica off-line. O argentino resolveu falar. Lionel Messi é um cara desconcertantemente simples. Quando perguntado se assistira a algum jogo clássico do Pelé, não. Quando soube que o badalado atleta do século lhe mandaria até um vídeo com seus lances para provar isso e aquilo outro, sim, claro, assistirei. Internalizando, aliás, internando mesmo. Já estou hospedado em Ouro Preto... sabe? Algo me diz que se voltar um dia a Salvador será para grandes mudanças. Caso Zezé, atolada que está em sua síndrome ridícula entre clínicas e clínicas psiquiátricas nos pampas uruguaios, demorar mais uma vez de cumprir a pauta, juro que dou um fim ao Telesphera... pronto, eis a referência. Nada mais carece. Fazer música, combinação de sons, sempre foi o desejo do armazém congestionado esse. Prometo que paro de beber se... por Messi, por Iansã. Ele sai do hotel ainda meio tonto. Seria preciso reacostumar-se com a ideia absurda de ser o primeiro caso clínico conhecido, a síndrome levaria seu nome, Zezé encabeçaria então uma corda de loucos, Zezé o Uruguai, meu pânico por coisas medíocres que só são medíocres pra mim, Zé Otávio o autocrítico, seu desafio. E Messi surpreende ao mencionar Che Guevara, conterrâneo, em um, senão inflamado, orgulhoso depoimento político passeando sobre respeito ao próximo, solidariedade, completude de vida... ou a meta dessa completude, ao menos, ele Maradona, todos políticos, Zezé a síndrome. Aterrissando. Eu novamente faço menção de reger o compasso quebrado diante da partitura, ora travestida de informações de segurança, colada na poltrona à frente da aeronave. A cabocla dessa vez entrelaça seus braços aos meus, julgando-me um diácono decerto, repetindo o amém. Não quero abordar o fanatismo religioso, não quero abordar o caminho da droga, disse que paro de beber, não quero abordar se não tenho mais paciência para tecer um tecido só... sabe? Maria José enfim produz algo de relevante citando o José Padilha, autor de Tropa de Elite e Estamira, cineasta prosaico, figura intrigante embora. Diz que o ouviu falar sobre a relação dos loucos com o mundo real, que estes são o que são porque, ao contrário do que parecem supor os compêndios, nunca descolam da realidade, e que, por outro lado, as pessoas comuns, essas sim, têm a imensa capacidade de ver um garoto de rua na sinaleira e não vê-lo de fato, enxergar, que seja, um garoto de rua na sinaleira. O texto ficou uma merda, respondo a Zezé, já esperando a bagagem no saguão do aeroporto de Confins. Não conheço o José Padilha, tampouco o julgar poderia, contudo prosaico... há colorido na definição que ele levanta, pouco importa se emprestada ou não, mas falta ainda viço pra tal definição ser daquelas categorias de definição abstrata irrefutáveis, como dor é dor, morte é morte, e loucura, definitivamente, agora sim, não flerta com células fechadas. Esse armazém surgiu justo por esse motivo, explico a Zezé, não fica chateada se acusei seu texto de bosta, não me interessa, não nos preocupemos com os pormenores da linguagem, tudo vira música. Está decidido, parar de beber... toca pra Ouro Preto, por favor. Nada mais carece. Um médico vive de repetir movimentos, mas em situações-limite é posto à prova se consegue encontrar uma saída criativa, como não? Com o jogador de futebol é a mesma coisa, Lionel compara. Zezé o gravador ligado, riso de canto, escarninho, a mulata que deixara esperando em Angola... Paulinho, posso dar um pulo na África depois que acabar aqui com as matérias em Barcelona? Puta que pariu, pergunta imbecil, o cara nunca foi disso, deve ser a zorra da síndrome. Bastou diagnosticarem seu quadro psicótico que agora ele, de quando em quando, me vem com essas culatras. Não sou médico. Tornei-me um tipo neófilo. Ações repetidas me causam verdadeira paúra. Não virei jogador, infelizmente. Talvez tudo hoje seria entoado diferente. Vida longa ao Telesphera, oro internamente, riso de canto, guardando a ironia, a minha mulata, nem que seja a vida de uma mosca. Parti de Salvador numa chuva quase bíblica. Era Iansã que chorava por mim. Quanta pretensão... mas eu volto, Iansã. Escreveria mais um livro inteiro de uma sentada só na pousada, assuntos transbordam, promessas também, no entanto há menos vontade do que instinto de fazer as asas funcionarem. A vida de um. Musicando. Transformar a persistência que o esporte exige, a coerência que a comunicação faz oprimir. Ah, os loucos... dessa orquestra sempre tive medo, por total admiração, de participar, apenas compor. Zezé chega em angola e trepa oito dias seguidos com sua mulata, minha mulata. Messi aconselha aos jovens que não experimentem as drogas, Iansã diz que não... é que elas tendem a acobertar pequenas lacunas na história da gente fragilizada essa. Ah, o esporte... se eu o tomasse como hábito, desde moleque, escreveria sim, de uma sentada só na pousada, um romance lacunar logo antes de enfiar uma bela pá de cal no armazém Telesphera. Mas fora o futebol, outras coisas vieram se me escapando ao longo do percurso, pensando aqui que estou sobre os votos triviais do mancebo-gênio argentino... as cartas de amor rasgadas, o carinho dos pais, as viagens mirabolantes, o menino brigão, a carteirinha de sócio remido no Bloco do Pensa Pouco. Maria se desculpa comigo, telefona até para se redimir do jornalismo chinfrim que vinha praticando aquele. Quando fica nervosa denuncia o sotaque castelhano. O Telesphera é quem pode, portanto, munir-nos com o bendito excerto literário obrigatório. A VIDA DE UMA MOSCA, uma mosca anciã com toda certeza para os corajosos que escalaram a altura silabinhas derradeiras dessas, mas o Telesphera é... cai a ligação. Uma lágrima invade meu rosto, seu. A música, acreditem, continua sendo a única porra que me mantém vivo. Estou sozinho como há muito tempo, desde moleque. Nada mais carece. |